Especialista lembra que problema de capacitação é enfrentado no País por qualquer trabalhador, independente de sua condição

“Dizer que a falta de qualificação é a única dificuldade para contratar deficientes físicos é miopia ou desculpa”, alerta a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Goiás (ABRH-GO), Dilze Percílio.

Isso porque a falta de qualificação é um problema generalizado, enfrentado por qualquer trabalhador do País, independente de sua condição física. “Tem se falado tanto na necessidade de qualificação dos trabalhadores em geral e não na dos deficientes físicos”.

Benefício

Ela reconhece que muitos deficientes preferem viver apenas do benefício assistencial dado pelo governo e outros não têm capacitação. Mas não são todos. Segundo Dilze, as áreas de RH das empresas também não sabem onde buscar os profissionais adequados às vagas oferecidas.

Muitos deficientes alegam que não buscam cursos de qualificação porque sabem que não terão retorno, ou seja, não conseguirão uma boa vaga no mercado. Além disso, eles precisam enfrentar a dificuldade da mobilidade. A vice-presidente da Adfego, Márcia Serrano, ressalta a dificuldade para um cadeirante pegar um ônibus.

Com as más-condições das calçadas, eles acabam gastando muito na manutenção das cadeiras de roda. Além disso, a maioria dos cursos profissionalizantes possui apenas escadas para acesso. “Por isso, muitos preferem pegar o benefício e ficar em casa”, acredita Márcia. Porém, ela acredita que, se houver mais oportunidades, o deficiente ficará mais estimulado a investir nele mesmo.

Faculdade

A operadora de Telemarketing Cristiane Soares Ramos trabalha há cinco anos no call center do Detran de Goiás e já foi atendente nos Correios. Ela, que teve paralisia e hoje se prepara para cursar uma faculdade, garante que a qualidade de seu trabalho é a mesma que a de qualquer outro trabalhador. O local onde Cristiane trabalha é totalmente adaptado, mas essa não é a regra geral. “Na maioria das empresas, não há rampa ou elevador, o que dificulta muito”.

O secretário de Cidadania e Trabalho, Henrique Arantes, reconhece que, apesar do Sine ter hoje cerca de 4 mil vagas captadas para deficientes físicos, ainda há uma grande resistência das empresas em contratar PCDs. Porém, ele acredita que a falta de instrução também seja outro inimigo poderoso. “Muitas famílias tendem a tratar o deficiente como um coitadinho e não investem na sua formação”, adverte.

Segundo o secretário, os cursos de qualificação oferecidos pelo Sine podem ser frequentados por qualquer deficiente físico. Para ele, outro problema é que, muitas vezes, eles nem sabem de seus direitos, como a lei de cotas.

Eles ficaram esquecidos por muito tempo

 Para o representante da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg) e presidente do Fimtpoder, que reúne 34 entidades, Marçal Henrique Soares, a falta de formação educacional e de qualificação realmente é um problema enfrentado por muitos deficientes físicos no Estado e no País.

Segundo ele, essa parcela da população ficou praticamente invisível para os governos durante muito tempo e só ganhou programas específicos de inserção nos últimos anos.

Acesso

Marçal garante que os cursos de qualificação oferecidos ainda não conseguem preencher todas as vagas até por dificuldades de chegar a eles. Ele lembra que os deficientes também encontram muitas barreiras de acesso e mobilidade urbana para irem para a escola ou trabalho. Outro problema começa nas próprias famílias, que temem deixá-lo sair de casa.

Além disso, o mercado conta com poucos professores capacitados para qualificar essa mão de obra especial. Nas empresas, também faltam equipamentos adaptados para eles, como computadores para deficientes visuais, e até rampas de acesso. Hoje, existem 8.772 crianças com deficiência matriculadas no Estado, que serão os trabalhadores de amanhã.

Usuário de muletas, Wellington Batista Martins conta que teve de deixar o último emprego porque a empresa não era adaptada para receber deficientes. Ele compartilha que nunca podia usar o refeitório, como os outros empregados, e tinha muita dificuldade até para chegar ao banheiro.

Wellington já trabalhou como assistente administrativo e como teleoperador. Mesmo com segundo grau completo e cursos de informática, ele reclama da dificuldade para encontrar um bom trabalho e ser reconhecido. “Um deficiente nunca consegue ser promovido na empresa”, afirma Wellington.

Empregabilidade

Atualmente, Goiás cumpre apenas 17% de suas cotas, estando apenas em 15º lugar no País. O primeiro é São Paulo, com 32% das cotas preenchidas. O presidente do Fimtpoder informa que o Estado foi o primeiro a aderir ao programa Viva sem Limite e criou o Conselho Estadual de Defesa das Pessoas com Deficiência.

A meta do Estado é que 5% dos comissionados sejam PCDs. “Nossa meta é chegarmos ao primeiro lugar no cumprimento das cotas em dois anos”, afirma o presidente do Fimtpoder.

Há dificuldade para cumprir cotas, diz Fieg

 Marçal Soares, da Fieg, ressalta que as empresas também têm dificuldades para cumprir as cotas e questiona como uma mineradora com mil funcionários, instalada no interior, pode conseguir recrutar 50 deficientes físicos num município de apenas 5 mil habitantes. Ele dá o exemplo do próprio Fimtpoder, que abriu uma vaga para um executivo portador de deficiência com curso superior, com salário de R$ 3,8 mil, e não consegue preenche-la. “Não é certo falar que só há vagas para o chão de fábrica”, afirma.

Alguns setores têm mais problemas para cumprir a lei de cotas. O engenheiro Wesley de Andrade Galvão, gestor de Obras e de Qualidade da Pontal Engenharia, diz que a empresa tem dificuldade para contratar apenas dois deficientes.

Ele lembra da dificuldade para inserir um deficiente físico numa obra, cuja acessibilidade é difícil e o trabalhador tem de administrar várias situações de risco. Já a área administrativa é ocupada por muitos menores aprendizes: a empresa precisa ter 1 para cada 20 funcionários.

Fonte: O Popular (GO)