A estiagem que atingiu Goiás em jeneiro e parte deste mês, durante 45 dias, vai comprometer e reduzir a safra de grãos do Estado neste ano, principalmente soja e milho, os carros-chefes da agricultura goiana, em pelo menos 25%. Vai causar prejuízos para produtores nos quatro cantos do Estado, elevar o custo da matéria- prima da agroindústria e impactar no preço dos alimentos que chegam a mesa do consumidor.

O diagnóstico foi feito ontem por 35 agricultores dos principais municípios produtores do Estado, reunidos na sede da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg). A estiagem que atingiu principalmente a Região Sudoeste do Estado é considerada a pior dos últimos 13 anos e seus efeitos são devastadores para o setor, alerta o presidente da entidade, José Mário Schreiner.

“Estamos em estado de alerta total. O prejuízo estimado até este momento é de 1,8 milhão de toneladas perdidas por conta da seca. Isso equivale a R$ 2 bilhões, ou 5% do PIB de Goiás. O pior é que poucas lavouras têm seguro rural. Apenas 27% estão asseguradas no Estado. Outras 73% estão descobertas. Vamos tentar diminuir esses efeitos dialogando com bancos, indústrias, multinacionais de defensivos”, antecipou Schreiner.

A redução de 25% da produção apresentada pelo presidente da Faeg é apenas uma estimativa. Numa avaliação de consenso, os produtores admitem que as perdas podem ser maiores. A confirmação virá com o término da colheita, previsto para o fim de março. O índice de perda da produção de grãos já está consolidado em cerca de 6%.

DESTAQUE

Ocupando mais de 75% da área plantada no verão em Goiás, a soja foi a principal cultura prejudicada. O maior problema ocorre por essa falta de chuvas ter se dado no período de enchimento do grão, crucial para o desenvolvimento das plantas de soja. Isso resulta numa má formação de vagens e grãos, que são colhidos com menor peso. A perda média é de 30% das lavouras.

Esse quadro de falta de chuvas é mais prejudicial nas lavouras com solo mais arenoso, que retém menor quantidade de água, agravando o problema da seca. Outras culturas como cana de açúcar, feijão e algodão também têm sido afetadas, mas em menor grau. Em média, 20% dessas culturas foram afetadas pela estiagem dos últimos dias.

NEGÓCIOS

Os negócios de boa parte das propriedades rurais ficaram comprometidos com a seca. O vice-presidente institucional da Faeg, Bartolomeu Braz, alertou, entretanto, que a renegociação de dívidas com bancos pode não ser um bom negócio, já que impacta diretamente no limite de crédito e os produtores não podem ter esse limite agravado.

“Precisamos analisar caso a caso e a Faeg fará isso no Banco do Brasil. Já temos regiões com perdas irreparáveis, por isso, quanto mais o produtor se proteger e buscar ajuda na hora certa, melhor”. Bartolomeu disse ainda que o impacto negativo será sentido por todos, inclusive pelo consumidor final, assim como pela Agroindústria, por isso a Faeg não medirá esforços para ajudar o produtor rural.

Procurado pela reportagem, o setor de crédito rural do Banco do Brasil informou que está capacitando funcionários para atender os casos. Não há, a princípio, nenhum plano de renegociação diante dos casos. O banco, principal agente financeiro do setor rural, ressalta que vai analisar os casos dos produtores com prejuízo e poderá alongar a dívida por mais tempo.

PRODUTORES

Os produtores destacam perdas dos lucro e que a solução será aumentar o preço para, pelo menos, diminuir parte das perdas. Ou seja, o consumidor pode esperar nova onda de alta dos preços dos alimentos. Isso por conta da situação precária registrada pelo campo.

Para se ter noção da situação, o município de Quirinópolis entrou em estado de emergência. O município perdeu cerca de 30% da produção de cana-de-açúcar, 50% de soja – que caiu para 20 sacas por hectare – e outros 50% de milho. Segundo o presidente do Sindicato Rural da cidade, Cacildo Alves, o fato foi positivo, pois dá ao município maior chance de viabilizar verba no governo federal para cobrir possíveis contratempos como este.

Rio Verde apresentou um porcentual de perda bastante diversificado, com produtores que tiveram 5% e outros, até 100%. Além da falta de chuva, a região de Rio Preto, cujo porcentual de perda foi de mais de 30%, ainda precisou enfrentar pragas, como a Helicoverpa armigera e a ferrugem asiática. Em Cristalina, a antecipação do plantio fez com que a situação atual não fosse tão grave.

Fonte: O Popular