RIO – Marijke Zewuster, chefe da área de Pesquisas de Mercados Emergentes do ABN-Amro, acredita que o impeachment deve ajudar a retomar a confiança na economia brasileira, mas ela afirma que as incertezas continuarão elevadas.

A senhora acredita num período de lua de mel do mercado com o Brasil após o impeachment?

Veremos mais confiança no mercado. Já vimos isso com o real. A questão é que acredito que não se deve ser muito otimista porque, seja quem governar o Brasil, terá um grande trabalho para colocar a economia de volta nos trilhos. No fim das contas, qualquer governo deve assegurar que os desequilíbrios estruturais melhorem. Isso significa melhorar a infraestrutura e buscar solucionar a baixa taxa de poupança e de investimentos. Não se espera que o impeachment leve, imediatamente, a uma melhora nas expectativas de crescimento, pode até ocorrer o contrário. Para lidar com a questão fiscal, será preciso fazer mais ajustes, que não são bons para o crescimento, embora sejam necessários.

Quanto tempo acredita que vai durar essa lua de mel?

Muito vai depender de como o Congresso vai reagir às propostas de um novo governo e se o governo estará disposto a implementar reformas. Se não tiver apoio, não se verão muitas mudanças. O Brasil também depende do ambiente externo para seu crescimento. Ainda há muito a ser solucionado. Podemos ter alguma melhora da confiança, mas as incertezas vão continuar elevadas.

A situação fiscal é o maior desafio da economia brasileira neste momento?

O problema mais urgente é o déficit fiscal, que está em torno de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Qualquer que seja o padrão usado, é muito alto. O nível dos impostos já é elevado, então, aumentar impostos não é muito desejado. Parte do ajuste deve se dar pelo lado dos gastos, mas não é fácil, porque há uma parcela grande de receitas com vinculações. Então, provavelmente se verá uma mistura entre corte de gastos e aumento de impostos.

A senhora vê riscos para a administração de Temer?

Sou uma economista, e a questão política não é minha especialidade. Mas o que se vê na operação Lava-Jato é que o PT não é o único envolvido. Isso é parte dos aspectos que podem afetar o período de lua de mel do mercado.

Qual é o cenário que vê para a economia brasileira?

Nossa projeção é de queda de 4% este ano e leve crescimento em 2017, de 0,5%. Mas esperamos alguma melhora no segundo semestre.
 

Fonte: O Globo