A tímida melhora dos níveis dos reservatórios de água das hidrelétricas em Goiás e no País não afasta o temor do mercado de haver falta de energia elétrica este ano. Os 38,7% de abastecimento de água no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que é o principal gerador nacional de energia, ainda está consideravelmente abaixo da média para o período (50%). As quatro usinas em Goiás estão com os reservatórios entre 11% e 46% mais rasos do que no ano passado. A situação se torna mais preocupante pelo fato de haver pela frente todo o período de seca, que está só no início e vai até novembro.

Para os analistas, a insegurança só aumenta quando se verifica que a quantidade atual de energia elétrica armazenada está muito próxima do patamar de 2001 (veja quadro). Naquele ano, houve racionamento do recurso e quem não conseguia economizar 20% do consumo foi penalizado com uma tarifa mais cara e, em alguns casos, com corte temporário do fornecimento, lembra o engenheiro e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás, Jonas Linhares Melo, que trabalha na Assessoria de Comercialização da Celg.

O governo federal nega essa possibilidade. Ontem, durante Encontro Nacional do Setor Elétrico no Rio de Janeiro, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmerman, afirmou que o risco de faltar energia é seis vezes menor do que em 2001. Segundo ele, o risco de déficit levantado para 2014 é de 3,7%, consideradas as médias dos anos passados. Em 2001, esse risco era de 18,7%. Os dados serão apresentados hoje ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), grupo que monitora as condições de operação do setor.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) melhorou sua estimativa em relação ao subsistema Sudeste/ Centro-Oeste para o final do período seco. O ONS previa que o nível dos reservatórios chegaria ao fim de novembro com 15% e, agora, essa expectativa subiu para 18%. No mesmo mês de 2001, o nível era de 23%, maior do que a atual previsão, mas por força de racionamento.

Se a situação piorar ao longo do ano, medidas poderão ser propostas, afirma o diretor-geral do órgão, Hermes Chipp. “Se houver previsão de chegar em novembro num valor mais, que não me dê tranquilidade em 2015, o operador não vai se furtar de propor ao poder concedente, ao CMSE e à agência (Aneel) o que deve ser feito.” Vale lembrar que atualmente todas as termoelétricas estão acionadas para fornecer energia (mesmo que mais cara) para o setor elétrico.

CONSUMO

Uma forte preocupação dos analistas é que, mesmo numa situação ligeiramente mais favorável hoje do que no ano do racionamento, não se pode perder de vista que o consumo de energia elétrica é quase o dobro do que em 2000, ano que antecedeu a medida. Em Goiás, o crescimento da demanda foi de 84% de lá para cá. A previsão da Celg é de que a população gaste este ano quase 12 milhões de megawatt/hora no Estado – 6,5% a mais do que no ano passado.

O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Romeu Rufino, disse ontem que é preciso “encarar” o atual nível dos reservatórios e que não há indicação de que será adotada, pelo governo, uma campanha específica para que a população reduza o consumo de energia. “Tem de encarar. Não tem o que fazer. Não vamos conseguir fazer chover, né?”, brincou.

O engenheiro Jonas Linhares Melo critica a falta de iniciativa e até resistência do governo de investir em campanhas de conscientização de consumidores para a redução do uso de energia, como forma preventiva a um possível agravamento da situação climática e hidrológica no País. “Até porque, se houver necessidade de racionamento este ano, já não há mais ‘gordura para queimar’, como havia em 2001, quando ainda não se tinha adotado medidas de economia no consumo de energia”, frisa.

Fonte: O Popular