Metade dos trabalhadores que ‘penduram as chuteiras’ recebem benefício especial devido à insalubridade

A aposentadoria chegou mais cedo para 50% dos metalúrgicos da base do sindicato do ABC. Metade dos trabalhadores que ‘penduram as chuteiras’ recebem benefício especial devido à insalubridade (funcionários que são expostos a agentes nocivos à saúde). Esses colaboradores ficam sujeitos a muitos ruídos, ar comprimido e substâncias químicas, como óleo solúvel, utilizado nos maquinários.

Porém, junto ao descanso, após anos de trabalho, o metalúrgico passa a receber bem menos do que no tempo em que estava na ativa. Um exemplo: aquele que ganhava cerca de R$ 6.000 antes de se aposentar passa a ter benefício entre R$ 1.200 e R$ 1.800 – 80% a menos.

“A redução é drástica. A categoria é uma das que conquistaram muitos direitos ao longo dos anos. Quando estamos na ativa recebemos uma boa PLR (Participação nos Lucros e Resultados), 13º, e em muitas empresas 14º salário, pagamento de hora extra, adicional noturno. Quando aposentamos, tudo isso acaba, sem contar a redução básica devido ao fator previdenciário”, analisa o presidente da AMA (Associação dos Metalúrgicos Aposentados) do ABC, Wilson Roberto Ribeiro.

Para manter o padrão de vida, cerca de 10% dos aposentados se mudaram para o Interior. “Lá o custo de vida é menor e dá para se viver com mais dignidade”, avalia Ribeiro. Outros 25% voltaram ao mercado de trabalho, desempenhando outras atividades dentro das próprias fábricas, a fim de ganhar um ‘extra’.

Aposentado desde 1992, João Batista da Silva, de 66 anos, recebe hoje cerca de R$ 1.850. Quando parou de trabalhar seu salário era de R$ 5.424, o equivalente a oito salários-mínimos (hoje em R$ 678). “Eu, minha esposa e meu menino, de 14 anos, não temos plano de saúde. Só de mercado e feira gasto cerca de R$ 900 por mês”, pontua o ex-funcionário da Toyota. Para o filho, ele paga um curso, no próprio sindicato, que custa R$ 180. Por dois anos ele vai fazer informática, inglês e administração. “Como ele estuda em escola pública, pelo menos faz o curso. É o que consigo pagar”, conta.

Para ajudar nas despesas básicas, sua esposa faz ‘bicos’, como cuidar de idosos e fazer faxinas em casas de famílias. “Para complicar, fiz um empréstimo consignado há um tempo, devido ao falecimento de um parente, meu irmão. Todo mês é descontado R$ 240. Minha dívida é de R$ 7.000. Fica apertado”, enfatiza Silva.

A vida de aposentado não é fácil para outro metalúrgico, José Gomes Filho, 65. Ele recebe o benefício desde 1997, e se aposentou por insalubridade. “O local de trabalho era muito barulhento e meu horário era durante a madrugada.” Hoje ele recebe R$ 2.130. “Esse é o valor que recebo após 27 anos de trabalho em metalúrgicas pesadas. Meu patrimônio foi construído com muito esforço. Consegui fazer três casas no meu terreno.”

Para manter as contas diárias, Gomes Filho teve que deixar de pagar convênio para ele e a mulher. “Ficava em R$ 700 por mês.” No lugar, ele compra os remédios que utiliza, no valor de R$ 300. “Dou sorte de retirar alguns em postos de Saúde.” Em meses melhores, dá para o ex-metalúrgico guardar R$ 150.

No caso de Aldemir Moreira Santos, 62, a preocupação com o futuro fez com que ele planejasse sua vida com mais rigor. Ao se aposentar, Santos tinha casa própria quitada, propriedade na praia e carro novo. “Aproveitei os anos em que trabalhei como metalúrgico para conquistar tudo aquilo que tenho. Quando estamos na ativa temos premiações, PLRs boas, e guardava tudo.”

Hoje, o que mais pesa no orçamento que recebe do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), R$ 2.000, é a alimentação. “Quase R$ 1.000 por mês é só com comida, produtos de higiene para casa e pessoal. Está tudo muito caro.”

Hoje, os trabalhadores aposentados da base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC somam 31 mil. Desses, 6.000 são associados à entidade.

Para Ribeiro, é necessária uma maior atenção para essa classe. “Estamos inseridos em todos os setores da sociedade. É preciso, inclusive, conversar com os mais jovens, porque eles não dão muita importância para a aposentadoria”.

INSALUBRIDADE – O presidente da AMA explica que a cada cinco anos de atividade insalubre, são contabilizados mais dois. “É por isso que temos muitos aposentados com 53 anos.”

Ele conta que, atualmente, aposentadoria por acidente de trabalho ou doença profissional corresponde a 6% dos benefícios concedidos, aproximadamente. “Os acidentes são mais raros nos dias de hoje. As empresas têm investido mais em segurança, e itens para isso. Quando algum acidente ocorre, a própria empresa remaneja esse colaborador e ele continua trabalhando, mas em outro cargo. Esse, inclusive, é um acordo sindical que temos, que assegura a permanência desse funcionário na companhia.”

Fim do fator previdenciário é luta das centrais sindicais

Nos últimos anos, uma das grandes reivindicações por parte das centrais sindicais do País é sobre o fator previdenciário – fórmula usada para a definição do valor da aposentadoria e que leva em conta o tempo de contribuição, a idade da pessoa e a expectativa de vida da população. Estima-se que essa sistemática gera até 40% de perdas ao trabalhador, em relação ao que ele pagou de contribuição.

Com o cálculo em vigência, perde-se muito do poder de compra, seja em qual categoria se trabalha.

No dia 11 deste mês, por exemplo, centrais sindicais se uniram e pararam as principais ruas, avenidas e rodovias que cortam a região. Intitulado o Dia de Luta, a manifestação teve a bandeira das melhorias trabalhistas. Os principais sindicatos das sete cidades integram o movimento, liderado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) e Força Sindical, junto as demais centrais: CSP-Conlutas, CUT, UGT, CGTB, CTB, CSB e NCST.

Nesse dia, 15 mil trabalhadores se concentraram no Paço Municipal de São Bernardo. Estiveram presentes diversos setores como metalúrgicos, químicos, trabalhadores da construção civil, bancários, trabalhadores de call center e vidreiros.

Tanto o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, quanto o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, que puxavam a marcha dos trabalhadores, deram especial atenção nos discursos à necessidade de uma reforma política para o País.

“As transformações que as ruas pedem não são possíveis sem as reformas necessárias, como a reforma política e tributária, além do fim do fator previdenciário”, destacou Rafael. “Apresentamos nossa pauta em março com reivindicações dos trabalhadores e queremos que seja cumprida”, prosseguiu.

Caso o governo federal não abra diálogo para as questões em debate (entre elas também estão redução da jornada de trabalho de 44h para 40h semanais, 10% do orçamento da União para a saúde do Brasil, 10% do PIB para a educação pública e redução da tarifa dos transportes sem corte nos gastos sociais), os dirigentes sindicais realizarão no dia 30 de agosto o Dia Nacional de Paralisação.

Fonte: Diário do Grande ABC