Membros da maior comunidade turca no Brasil, em São Paulo, veem com preocupação uma possível caça às bruxas contra grupos contrários ao presidente Recep Tayyip Erdogan. À distância, acompanham as ameaças que parentes e amigos têm sofrido não apenas na Turquia, mas também em outros países da Europa.

Com o irmão preso desde a manhã de sábado, o engenheiro Fatih Simsek, de 36 anos, afirmou ao GLOBO que o medo de torturas e de prisão em campos de concentração tem aumentado no país a cada dia. Na noite da última sexta-feira, o presidente turco atribuiu ao clérigo Fethullah Gülen, criador de um movimento contrário ao governo, a tentativa de golpe militar naquele país. Gülen negou qualquer envolvimento.

— Tiraram meu irmão de casa, na frente dos três filhos. Ele é empresário, tem lojas de eletrodomésticos e sempre ajudou instituições de caridade, mas desde 2014 o governo vem fazendo pressão sobre membros e empresários ligados ao grupo Hizmet (criado por Gülen). Já ouvimos falar que estão incentivando as pessoas a tirarem os bens de quem apoia o movimento. E isso ainda é só o começo. É uma caça às bruxas — diz Simsek.

O Brasil abriga cerca de 500 turcos, e 80% deles estão na capital paulista. O Centro Cultural Brasil Turquia recebe denúncias e pedidos de ajuda também daqueles que emigraram para países da Europa.

— Na Bélgica, um grupo passou na casa de famílias turcas, bateu em suas portas e disse que não as querem lá. Chegaram a pichar as portas — afirma Simsek, mostrando uma foto em seu celular de uma dessas pichações. — Temos muito medo de fanáticos e ignorantes, sem visão internacional das coisas. A situação para os turcos está piorando, mesmo que não se tenha relação com esse golpe. Somos contra qualquer tipo de golpe. Ele (Erdogan) é o real golpista, e vem fazendo muitos golpes desde 2013.

Sem querer apontar culpados para o clima de guerra que se instalou na Turquia, o jornalista Kamil Ergin, de 32 anos (11 deles no Brasil), diz estranhar as características da tentativa de tomada de poder naquele país. Desde que foi instituída a República da Turquia, em 1923, a população já passou por quatro grandes golpes de Estado, o primeiro deles em 1960.

Para Ergin, estão se aproveitando do ódio “para acabar com todo o movimento Hizmet”.

— A gente sabe o que é golpe, e um que começa às 19h, horário em que as pessoas estão nas ruas, nas mesquitas, é de se estranhar. Não faz o menor sentido bloquear uma ponte, por exemplo. Comparando com os outros, esse último não teve característica de golpe, mas um tipo de atentado terrorista — opinou Ergin, que teme o crescimento de grupos extremistas no país. — Voltou-se a discutir pena de morte. Querem a execução dos supostos golpistas e de todas as pessoas ligadas ao Hizmet. Não existe ambiente seguro. Estamos com medo de a tortura voltar.

Com a viagem que faria à Turquia no próximo dia 28 cancelada, o administrador Eres Acar, de 33 anos, contou que a ameaça chegou bem perto de sua família, que vive na capital, Ancara.

— Estão todos (parentes) se sentindo ameaçados. Já até os convidei para vir ao Brasil — diz Acar.

Fonte: O Globo