Consumidores se dizem assustados com os últimos aumentos de preços. Comércio teme retração de vendas

Mesmo depois de 20 anos sem índices de inflação acima dos 1000% ao ano, a diarista Maria Aparecida Xavier ainda se lembra bem daqueles tempos difíceis. Ela conta que como os preços subiam até duas vezes num único dia, o salário não dava para comprar quase nada. “Meus filhos raramente comiam carne ou bebiam leite e nem tínhamos televisão em casa”, diz.

Depois do Plano Real, Maria Aparecida garante que sua vida mudou. Ela pode comprar mais comida e, com a oferta de crédito, conseguiu comprar televisão, geladeira e outros eletrodomésticos. Há alguns anos, a diarista conseguiu até juntar dinheiro para comprar um carro usado. Mas, hoje, depois de tantos aumentos de preços nos últimos anos, ela tem medo de uma disparada da inflação. “O governo não pode deixar isso acontecer com a gente.”

Os comerciantes também se lembram bem daquela época. Para o empresário Agnaldo Moreira, diretor presidente do HiperMoreira, o Plano Real foi um divisor de águas. Ele conta que um litro de óleo custava um preço pela manhã e outro à tarde. Com isso, os funcionários viviam com as mãos nas etiquetadoras de preços. No final, comerciantes e clientes perdiam, pois ninguém conseguia acompanhar a evolução dos preços.

A transição para o real foi muito difícil, pois os preços tiveram de ser convertidos para a Unidade Real de Valor (URV) e para Cruzeiro Real, o que gerou muita confusão na hora de receber e pagar mercadorias. “Se, naquela época, tivéssemos o tamanho de hoje, teria sido muito mais dramático”, lembra Agnaldo.

Mas o resultado final foi bom: com os preços sob controle e todo mundo sabendo quanto iria pagar no final, a palavra de ordem passou a ser a eficiência administrativa. Agora, 20 anos depois, Agnaldo diz que o comércio vive um período perigoso de perda do poder de compra e retração nas vendas.

Para ele, há uma maquiagem sobre a inflação e o superávit primário, uma conta que vai chegar. “Muitos produtos estão bem mais caros que no ano passado. Isso ameaça nossas conquistas porque, com menos poder de compra, todo mundo está puxando o freio, o que é muito ruim, pois dependemos do consumidor final”, alerta.

AMEAÇA

Se ninguém compra e ninguém vende, a economia está ameaçada. Para o economista Antônio Eurípedes de Lima, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), a situação atual é extremamente preocupante, pois vários itens de consumo não administrados pelo governo estão com reajustes muito acima dos índices de inflação. Hoje, muitos jovens estão descobrindo o que ela é. “Quando os agentes econômicos começam a fazer intervenções pontuais, administrando preços como os da gasolina, energia e passagens de ônibus, para segurar o índice, gera falta de confiança”, adverte.

Essa quebra da confiança, tão importante para o mercado, gera um baixo nível de investimento. Por isso, o economista acredita que os esteios do Plano Real podem estar muito ameaçados. “A inflação é sempre um risco e seu controle rigoroso tem de ser prioridade”, alerta Eurípedes. O maior perigo é que o centro da meta inflacionária, criado para uma eventualidade, acabou virando regra.

O resultado é o baixo crescimento. Para o presidente do Corecon, o grande erro é incentivar o crescimento do PIB pelo consumo, e não pelo investimento. “Incentivar o consumo sem investimento tem limite e custo. O Brasil precisa voltar ao eixo de desenvolvimento sustentável para reconquistar a confiança”.

PRESSÃO

Para o economista do Instituto Mauro Borges (IMB), Marcos Arriel, a inflação é uma ameaça aos ganhos obtidos pelo País nas duas últimas décadas. Ele acredita que, se não fossem os preços administrados pelo governo, ela estaria bem maior. Por isso, Marcos adverte que o governo deve atacar este mal, com mais controle de gastos e incentivo ao investimento privado para aliviar a pressão sobre a oferta. “Grande parte da inflação atual é resultado do baixo investimento na geração de capital”.

O economista lembra que o crescimento do PIB nos últimos anos foi puxado pelo consumo das famílias via crédito e pelo aumento da renda, com aumento do emprego, que são frutos da estabilização da moeda. Antes, os salários eram rapidamente consumidos pela inflação e não havia como comprar um carro em 60 meses. O acesso era limitado, por consórcio. “Mas, com baixo investimento, não há horizonte”, alerta.

VITÓRIA

Ao completar 20 anos, o Plano Real deixou como marca a vitória na sua principal batalha: acabar com a hiperinflação. Antes de a nova moeda entrar em circulação, em junho de 1994, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estava em 47,43% ao mês. Em julho daquele mesmo ano, a inflação caiu para 6,84%.

A estabilização permitiu avanços: o mercado de trabalho se formalizou, a desigualdade social diminuiu, o Brasil passou de devedor a credor do FMI e a economia brasileira foi elevada a grau de investimento pelas principais agências internacionais de classificação de risco.

Apesar da estabilidade, que colocou o País num novo patamar de desenvolvimento, a economia brasileira ainda tem diversos desafios, como a própria manutenção dos índices de inflação e a até redução deles para patamares similares aos de países desenvolvidos. O Brasil ainda não conseguiu, por exemplo, resolver um dos eternos dilemas: conjugar alto crescimento com uma baixa inflação.

Hoje, é consenso que o País precisa de reformas estruturais, como trabalhista, fiscal e política, para ter um novo impulso econômico.

Hoje, consumidor não aceita aumentos

(LM)

01 de julho de 2014 (terça-feira)

Nos tempos de inflação galopante, o varejo corria para comprar produtos no último momento antes que uma nova tabela chegasse, como lembra o presidente da rede Flávio’s, Florêncio Rezende. Mas, depois do Plano Real, o consumidor passou a conhecer os preços e a rejeitar reajustes. Agora, indústrias e lojistas vivem um drama com as altas de preços: as matérias-primas estão subindo e há muito mais dificuldade em repassar esses custos. Só o couro teria subido 40% em um ano.

Com isso, as empresas são obrigadas a absorver parte das perdas para não perder vendas. A ameaça da inflação, que corrói o capital das empresas e o salário do trabalhador, é cada vez mais real. “Essa política baseada no consumo, e não na produção, é muito perigosa”, adverte o empresário.

EVOLUÇÃO

Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABFin), o Brasil teve uma grande evolução ao desatrelar sua política econômica da partidária. Com isso, as conquistas do Plano Real conseguiram atravessar governos. Mas, agora, com uma economia mais vulnerável, ele acredita que o Plano precisa de ajustes.

CRÉDITO X JUROS

Os preços altos refletem nas finanças das famílias, que tiveram seu aumento do poder de compra alavancado pelo crédito. Agora, o governo eleva os juros para conter esse mesmo consumo que ele incentivou antes. Apesar da inflação não refletir a realidade de aumentos, Reinaldo acredita que o governo ainda consegue manter o controle se ajustar alguns eixos.

A opinião é compartilhada pelo presidente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), Nelson Alexandrino. Ele lembra da inflação como um período constrangedor, quando não havia como planejar nada. Agora, mesmo com a inflação atual, esse planejamento ainda é possível. “Um produto que está caro hoje, pode estar mais barato amanhã durante uma promoção”, explica.

Nelson não acredita na volta das antigas máquinas de remarcar preços, que exigiam muita etiqueta e mão-de-obra. Para ele, o governo só precisa ter pulso firme para conter os aumentos e a inflação. “Ela ainda está sob controle”, acredita.

1.594674

Ajustes ainda são necessários

(LM)

01 de julho de 2014 (terça-feira)

Apesar dos ganhos obtidos com o Plano Real, a indústria, o comércio e a agricultura alertam para a necessidade de ajustes. Para o presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), Pedro Alves de Oliveira, junto com a estabilização da moeda, faltaram reformas como a tributária e a trabalhista.

Além disso, acredita que o governo precisa equilibrar suas contas, pois, caso contrário, terá de emitir moeda e a inflação pode aumentar. Para Pedro, o Real cumpriu bem o seu papel, mas a economia necessita, urgentemente, de medidas que aumentem a competitividade da indústria, que sofre a concorrência de mercados como a China.

Para o presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio-GO), José Evaristo dos Santos, a inflação é desastrosa sem um controle eficaz. Entre as ameaças, estão o desequilíbrio do superávit primário, a baixa produtividade, a perda do poder de compra e a alta carga tributária. “Hoje, a meta inflacionária é alta e, se ultrapassada, causa um desequilíbrio difícil de recuperar”. Ele lembra ainda a importância de proteger os empregos, que garantem o sucesso do Real. “Não há como comemorar esses 20 anos sem equilíbrio”.

Para o consultor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural em Goiás (Senar-GO), Pedro Arantes, o setor agropecuáriofoi muito beneficiado pelo Real, com redução dos juros, aumento da oferta de crédito e redução do endividamento dos produtores, que não administram preços. “Antes, o produtor plantava com um preço e colhia com outro”, lembra. Agora, as preocupações voltam: inflação e juros altos, falta de investimentos em infraestrutura.

Fonte: O Popular