Estudo sobre Juventude e Trabalho mostra que a falta de conhecimentos provoca mais rotatividade entre jovens que a falta de vagas

Pouca experiência e qualificação podem empurrar os jovens para firmas com empregos mais instáveis. Alta rotatividade e a instabilidade da ocupação, na faixa etária entre 14 a 24 anos, causam mais desemprego do que a falta de vagas de trabalho. As constatações são de um estudo preliminar, apresentado na quarta-feira, pelo Instituto de Pesquisa Econômico Aplicada (Ipea). Entre as evidências do levantamento está o fato de que tão grande quanto as admissões de jovens é o número de desligamentos.

O estudo Inserção dos jovens no emprego formal: uma abordagem de fluxos reforça ainda mais a afirmativa de que o futuro do trabalho depende essencialmente da escolaridade, qualificação e experiência. Segundo os dados, extraídos de informações de indicadores de emprego e desemprego, como a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), o pico da educação profissional dos jovens está na Classe C. Um total de 48,42% são desempregados ou inativos.

A jovem Raquel Oliveira, 17, era uma entre os milhares de jovens em situação de desemprego ou com emprego informal e que conseguiram um trabalho após terem feito algum curso de qualificação. Ela ajudava a tia no comércio de roupas em feiras de Goiânia. Decidiu fazer cursos de informática, marketing pessoal, entre outros, que a ajudaram a conseguir um contrato de trabalho de dois anos, para desenvolver atividade de aprendiz na área de recursos humanos de uma empresa de telefonia em Goiânia.

Raquel já teve abertas as portas de outras empresas após pouco tempo de qualificação, mas espera renovar o contrato ou ser efetivada no futuro. “Empregos existem, mas sem que a gente busque merecer é muito mais difícil conseguir entrar e ficar”, completa ela.

Para a psicóloga responsável pela área de recursos humanos de uma indústria alimentícia em Goiânia, Carla Amorim, o impacto do desemprego para as novas gerações ainda pode trazer mais problemas para o futuro, como a escassez de mão de obra qualificada. “Como há dificuldade de contratação de jovens por falta de qualificação mínima, o mais possível é que no futuro o mercado encontre dificuldades de encontrar profissionais com experiência e qualificados”, diz.

Participação

A juventude trabalhadora mostra grande participação no mercado de trabalho formal. Entre os jovens com idades entre 14 e 24 anos, 61% estavam trabalhando ou ativamente buscando o trabalho em 2011, segundo a Pesquisa Mensal do Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sendo 64% homens e 58% mulheres.

As tendências dessa juventude no mercado de trabalho com o aumento da escolarização traz impactos importantes. O ensino médio completo é condição fundamental para aumentar as oportunidades de acesso a um melhor trabalho, sendo 70% dos novos empregos formais gerados em 2010 ocupados por pessoas com ensino médio completo.

O Estudo, apresentado na quarta-feira passada, pelo diretor-adjunto de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Carlos Henrique Corseuil, durante o painel Juventude e Trabalho, promovido na terceira edição da Conferência do Desenvolvimento, em Brasília, reforçou que o desemprego juvenil não deve ser entendido como uma falta de vagas de trabalho, pois o número de admissões é superior nesta faixa etária.

Em compensação, a taxa de desligamentos também é consideravelmente maior que entre os adultos. O estudo descarta como causas deste fenômeno a existência de vínculos trabalhistas frágeis – como a contratação temporária – e a tendência, supostamente maior entre jovens, de abandono do emprego.

As análises indicam que boa parte da população entre 14 e 24 anos está em setores da economia com grande instabilidade, fato que pode ser provocado pela falta de qualificação.

A pesquisa tem o mérito de tentar entender a presença do jovem no mercado de trabalho por meio do estudo dos fluxos de admissão e desligamento e não apenas olhando as medidas de estoque, como o nível de desemprego.

Ainda de acordo com o estudo, existe um ciclo vicioso entre pobreza, desigualdade e baixa qualificação que impede os jovens de aproveitarem as oportunidades do bom momento vivido pelo mercado de trabalho. A afirmativa reforça a necessidade de políticas públicas que atendam a necessidade da juventude, e pensem tanto na oferta de qualificação quanto na criação de uma demanda em áreas com trabalho digno.

Fonte: O Hoje (GO)