No Brasil, o desafio dos fabricantes é entender as expectativas dos novos clientes em relação aos seus produtos

O funcionário ignora a configuração criada pelo rapaz e se oferece para mostrar um modelo do showroom. Impaciente, o jovem recoloca os fones e sai da loja.

Ao simular situações como essa nos EUA, a General Motors descobriu que os jovens nascidos entre os anos 1980 e 2000, os chamados “millennials” ou geração Y, não curtem os métodos tradicionais de compra e venda de carros e tampouco se deixam seduzir por brindes como tapetinhos e vidros escurecidos. Eles querem conectividade e pronta entrega.

Alexandre Valentim, 24, foi conquistado pelo sistema multimídia do Chevrolet Sonic

A pesquisa que deu origem a essas conclusões foi encomendada pela GM à MTV Scratch, divisão da emissora de TV responsável por ajudar as empresas a entender os desejos desse público consumidor.

A MTV propôs mudanças na rede de concessionárias, nos carros e na forma de comunicação. A GM não revela o que foi feito a partir dos resultados do estudo, mas não é difícil concluir que até os comerciais da marca no Brasil foram influenciados pelo trabalho.

Esse movimento de aproximação da juventude não é exclusividade da GM. “As propagandas vêm usando músicas e atores mais jovens. Não posso dar números absolutos, mas nossas pesquisas indicam que o perfil demográfico dos clientes da marca está rejuvenescendo ano a ano”, diz Frederico Themoteo Jr., diretor de marketing de comunicação da Chevrolet do Brasil.

A grande demanda do mercado interno torna a situação brasileira mais confortável que a de países como Estados Unidos e Canadá.

Um estudo concluído neste ano pela consultoria de negócios AlixPartners mostra que o número de potenciais compradores de carros nesses países diminuiu em 5 milhões nos últimos cinco anos. A consultoria cita o desemprego entre os jovens como o principal fator da queda.

Outro estudo, feito pela Universidade de Michigan, revela que o percentual de jovens de 19 anos com carteira de habilitação vem diminuindo nos EUA. Em 1983, eram 87,3%; em 2010, esse número caiu para 69,5%.

No Brasil, o desafio dos fabricantes é entender as expectativas dos novos clientes em relação aos seus produtos.

“Os jovens de hoje também compram, talvez até mais do que os dos anos 1980. A diferença é que eles não colocam o consumo como sonho. E têm uma visão mais crítica das empresas”, diz o sociólogo Gabriel Milanês, um dos responsáveis pelo estudo O Sonho Brasileiro, que em 2010 entrevistou cerca de 2.000 jovens de 18 a 24 anos em todo o país sobre suas expectativas de futuro.

Nas pesquisas de mercado, os fabricantes buscam aferir o que pode despertar o interesse do público jovem de acordo com diferentes perfis (leia mais na página 4). Uma das principais preocupações é adotar estratégias de abordagem que não espantem esses potenciais clientes, como ocorreu no episódio simulado pela MTV Scratch.

 

Fonte: Folha de São Paulo