De acordo com economistas, crescimento de alguns setores vem ocorrendo mais por fatores pontuais, como incentivos

A demanda fraca está travando o avanço da indústria. Segundo analistas, o crescimento de alguns ramos tem ocorrido mais por questões pontuais, como o incentivo do governo ao setor automotivo, do que por fatores consistentes, que beneficiariam todo o setor industrial.

Estudo feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) revela que apenas sete setores da indústria, de 25 pesquisados, estão com tendência de melhora. Oito setores foram classificados como ruins. Os demais estão numa faixa intermediária, que engloba oscilação, baixo crescimento e melhora após grande queda. A classificação tem como base os dados de produção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“A indústria está muito heterogênea. Cada setor está funcionando de um jeito. Alguns estão em queda, outros melhoram. Tudo isso indica que não existe um componente de demanda forte que esteja puxando todo mundo ao mesmo tempo”, diz Cristina Reis, consultora do Iedi. “Há pontos locais que contribuem para um determinado setor, como um incentivo do governo, por exemplo”, acrescenta ela. Segundo o Iedi, a tendência geral é de fraco crescimento da produção industrial este ano.

A demanda fraca converge com o pessimismo do mercado para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. Segundo o Boletim Focus, do Banco Central, do primeiro relatório de mercado de 2013 para o último, a expectativa de crescimento econômico caiu de 3,26% para 2,28%. O mesmo caminho fez a previsão para a produção industrial: recuou de 3% para 2,1%.

Estoques

Pelo estudo do Iedi, setores que tiveram melhora após grande queda na produção estão sentindo mais essa variação da demanda, o que dificulta uma previsão dos estoques e, consequentemente, do ritmo da produção. Nessa lista estão, por exemplo, os setores de calçados e artigos de couro e vestuário e acessórios.

“As indústrias produzem e depois o mercado não responde, o que acaba criando essa oscilação”, afirma Cristina. A produção do setor de vestuário recuou 2,3% em abril e 5% em maio. Em junho, avançou 5,1%. “Não é um fator para grande comemoração. É uma recuperação do que foi perdido.” O desempenho de alguns setores, como o de alimentos, também tem oscilado por causa do aumento da inflação e da perda de fôlego da renda e do mercado de trabalho.

Em 12 meses encerrados em junho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 6,7%, acima do teto da meta do governo. “No primeiro semestre de 2012 a produção industrial caiu 3,8%. Neste ano, o avanço é de 1,9%. O quadro é melhor, mas ainda não é grande coisa”, diz Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. (AE)

Entrave para expansão inclui inflação

Os entraves da indústria brasileira são tão amplos que as reclamações dos empresários englobam desde a conhecida baixa competitividade até, mais recentemente, o menor poder de compra do brasileiro diante da alta do endividamento e da inflação elevada.

Esses fatores contribuíram para que o setor calçadista sentisse uma queda na demanda interna, que foi agravada pela estabilidade do setor externo. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), entre janeiro e julho o volume exportado em dólar foi apenas 2,6% superior ao do mesmo período do ano passado – cresceu de R$ 443,9 milhões para R$ 455,4 milhões.

“Esse movimento de dólar ainda não produziu o efeito que se pode esperar”, afirma Heitor Klein, presidente executivo da Abicalçados. Até sexta-feira, a desvalorização do real era de 11,44%. “E não se tem ideia do que pode acontecer no resto do segundo semestre, porque o cenário está bem volátil.” Em junho, por exemplo, a produção do setor de calçados e artigos de couro subiu 6,7%, depois de recuar 6,1% em maio.

Na indústria têxtil e de confecção houve um descompasso entre produção e venda. Os dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) mostram que a produção de vestuário recuou 2,35% no primeiro semestre, mas o varejo subiu 4,6%. “Isso mostra uma penetração forte de produtos importados”, afirma Aguinaldo Diniz Filho, presidente da Abit. “A gente vem lutando para conseguir uma igualdade de produção com o importado.”

Ele estima crescimento de, no máximo, 1,5% para o setor. Na concorrência, também pesa o custo da mão de obra, que representa 40% do custo de uma peça de roupa. “O custo unitário do trabalho subiu no Brasil, que está um país caro”. (AE)

Fonte: O Hoje (GO)