A goiana Delaíde Arantes relata sua trajetória de vida, que começou como empregada doméstica em Pontalina

“Meu sonho sempre foi trabalhar com Direito. Uma vez me perguntaram: como é o caminho de empregada a ministra? Olha, foi tão longo que nem dá para fazer uma ligação direta. Fui doméstica aos 15 anos, em Pontalina (GO), para ajudar a custear meus estudos, comprar livros”, Assim a advogada Delaíde Arantes, que hoje é ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), começa a relatar sua história de vida. Ela conta que depois foi para Goiânia e trabalhou em uma república de moças. “Eu morava lá, mas não pagava aluguel, prestava esses serviços. Fiquei lá seis meses.”

Filha mais velha de nove irmãos, Delaíde foi a primeira a sair de casa e a primeira a se formar no nível superior. Depois dela, outros irmãos também fizeram faculdade. “Desde menina me dei conta de que a situação financeira da minha família era muito ruim. Vovó dizia que tinha receio de a minha mãe passar dificuldade. Eu pensava: vou ajudar meus pais”, lembra.

Ela conta que pedia a Deus para ajudá-la a estudar. “Papai me dizia que era muito difícil, éramos muitos filhos e eles não tinham recursos”. Mas ela estudou bastante. A escola ficava a 2,5 km de sua casa. Delaíde ia e voltava a pé. “Lembro-me de um episódio em que um primo foi me ajudar a arrumar um emprego. Ele ligou para um político que frequentou a casa do meu avô e, quando explicou quem eu era, o interlocutor emendou: ‘Neta do Cipriano não pode ser’.

De acordo com a hoje mistra do TST, o político queria dizer que aquela família era tão simples que não poderia ter alguém com preparo para trabalhar em um escritório de advocacia. Mas ela trabalhou lá por seis meses.

Sonhos com tribunal

Delaíde recorda que em sua cidade existiam poucas atividades culturais. Em Pontalina só havia uma sala de cinema, que exibia filmes alguns dias do mês. “O que tinha sempre era seção do Tribunal do Júri. A população ia lá assistir e ficava encantada. Eu também”.

Ela afirma que sempre soube que era isso o que queria. “Fiz contabilidade e depois o curso de Direito. Nesse período, em Goiânia, trabalhei em vários lugares: em loja de material de construção, recepcionista em construtora e, depois de uma seleção, fui secretária-executiva de uma multinacional.

Procurei fazer tudo da melhor forma. Não houve um salto na minha carreira. Foi uma longa e lenta caminhada. Ingressei de corpo e alma na carreira”. Com dez anos de advocacia, ela montou o próprio escritório. Depois de 30 anos surgiu a oportunidade de concorrer a uma vaga no Tribunal Superior do Trabalho. “Concorri com 28 advogados de todo o Brasil. Meus pais são vivos e estão muito orgulhosos de mim. Eles me apoiam desde pequenininha.”

Fonte: O Hoje (GO)