São Paulo – Não é à toa que muitas famílias brasileiras levam um susto ao receber o aviso de reajuste das mensalidades escolares. Embora os aumentos pelas instituições de ensino pressionem os índices inflacionários somente nos primeiros meses do ano, são suficientes para que a educação tenha uma variação de preços acima da inflação geral da economia na leitura anualizada. Outro gasto familiar que tem subido acima da média é o de planos de saúde.

Levantamento da Tendências Consultoria Integrada mostra que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 71,13% entre 2004 e 2013. Considerando, no entanto, apenas o item “cursos regulares” do IPCA, que engloba desde a creche até a pós-graduação, o avanço foi de 101,5% no período (veja quadro).

O mesmo comportamento é encontrado nos serviços de saúde, que subiram 114,41% no IPCA entre 2004 e 2013, de acordo com o cálculo da Tendências Consultoria. O destaque fica por conta do item “planos de saúde”, que registrou alta de 128,5% neste intervalo.

“Importante destacar que a metodologia usada no IPCA leva em conta apenas os planos individuais, que têm seu reajuste regulado pela Agência Nacional de Saúde (ANS), mas representam a minoria dos contratos das operadoras”, explicou a analista Adriana Molinari, da Tendências Consultoria.

A Unimed, cooperativa médica que comercializa planos de saúde, possui cerca de 20 milhões de beneficiários no território nacional. De acordo com o diretor de Integração Cooperativista e Mercado da Unimed do Brasil, Valdmário Rodrigues Júnior, 75% da carteira corresponde a planos corporativos e 25% a planos individuais.

Segundo o diretor, os contratos corporativos dependem de uma negociação livre das operadoras com cada empresa, e a alta dos preços pode ficar abaixo ou acima do reajuste máximo estipulado pela ANS para os planos de pessoa física – que em 2013 foi de 9,04%, por exemplo. “A negociação depende do nível de sinistralidade do plano, mas costuma ser balizada pelo reajuste da ANS. Na prática, as empresas contratantes não aceitam aumentos muito acima disso”, conta.

OUTROS SETORES

Inflação em forte aceleração, no entanto, é uma tendência no setor de serviços e não se limita à educação e saúde. “Hoje, com o dinheiro de uma consulta médica você paga uma televisão e com o dinheiro de um almoço fora de casa você compra um aparelho de DVD”, diz o professor Heron do Carmo, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP).

A forte aceleração dos preços de serviços decorre de um conjunto de fatores. O aquecimento do mercado de trabalho no Brasil nos últimos anos provocou ganhos reais de salário, o que pressionou os custos do setor, que é intensivo em mão de obra. Em contrapartida, houve crescimento da demanda por serviços, associado justamente ao aumento de renda do brasileiro. Além disso, ao contrário do que ocorre com bens industrializados, os serviços não sofrem com a concorrência do que é produzido no exterior, o que também se reflete na inflação.

“A evolução dos preços de serviços tem sido a principal fonte de pressão inflacionária para o consumidor”, resume a analista Adriana Molinari, da Tendências. De acordo com o cálculo da consultoria, entre 2004 e 2013 a cesta incluindo todos os serviços de preços livres contemplados pelo IPCA registrou aceleração de 104,37%, mais de 30 pontos porcentuais acima do índice cheio no mesmo período.

Fonte: O Popular