O déficit das contas externas brasileiras recuou 8,4% no primeiro trimestre deste ano, para US$ 25,39 bilhões, segundo números divulgados pelo Banco Central nesta quarta-feira (22). No mesmo período do ano passado, o resultado negativo havia somado US$ 27,73 bilhões. Somente em março deste ano, o déficit foi US$ 5,73 bilhões.

O resultado da conta de transações correntes, um dos principais indicadores do setor externo brasileiro, leva em conta a balança comercial (importações e exportações), os serviços (como gastos em viagens e transportes) e as rendas (como juros e remessa de lucros, entre outros).

Em todo o ano passado, o déficit em transações correntes somou US$ 103,98 bilhões, segundo dados revisados. Na proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o indicador considerado mais adequado por economistas, somou 4,43% em 2014.

Os números do ano passado foram revisados para se adequar a uma nova metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI). Até então, o BC informava que o déficit em conta corrente tinha somado US$ 90,9 bilhões, ou 4,13% do PIB, em 2014.

Em março, o déficit ficou em US$ 5,736 bilhões – 13,1% menor que os US$ 6,6 bilhões do mesmo mês de 2014.

Em doze meses até março deste ano, o déficit em conta corrente somou US$ 101,6 bilhões, ou 4,54% do PIB. Acima de 4% do PIB, o déficit brasileiro, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), é um dos maiores do mundo.

Para 2015, o BC prevê, já considerando as mudanças metodológias nos indicadores do setor externo, um déficit de US$ 84 bilhões para este ano, o equivalente a 4,4% do PIB – patamar ainda elevado para padrões internacionais.

Investimento direto

O Banco Central informou ainda que o ingresso de investimentos diretos no Brasil somou US$ 13,13 bilhões no primeiro trimestre deste ano – com forte queda de 38% frente ao mesmo período do ano passado, quando somaram US$ 21,19 bilhões.

Com isso, os investimentos não foram suficientes, novamente, para “financiar” em sua totalidade o déficit das contas externas do período – que somou US$ 25,93 bilhões.

Em 2014, segundo números revisados por conta de mudança na metodologia das contas externas, os investimentos diretos no país somaram US$ 96,85 bilhões. Até então, o BC informava que os investimentos haviam somado US$ 62,4 bilhões.

Para 2015, a previsão do BC, já considerando a nova metodologia, é de que os investimentos estrangeiros somem US$ 80 bilhões, não sendo suficientes, outra vez, para financiar o déficit em conta corrente deste ano – previsto em US$ 84 bilhões.

Financiamento do déficit externo

Quando o déficit não é “coberto” pelos investimentos estrangeiros, o país tem de se apoiar em outros fluxos, como ingresso de recursos para aplicações financeiras, ou empréstimos buscados no exterior, para fechar as contas.

Economistas alertam, entretanto, que em um cenário de crescimento menor do PIB, de indicadores ruins das contas públicas e externas brasileiras, a atratividade da economia brasileira também é menor, o que pode significar um pouco mais de dificuldade no financiamento do déficit das contas externas.

O governo tem lembrado que as reservas internacionais brasileiras, acima de US$ 370 bilhões, conferem tranquilidade na administração das contas externas brasileiras.

Componentes das contas externas

A melhora nas contas externas, no primeiro trimestre, está relacionada, principalmente, com o resultado da balança comercial brasileira e com o déficit na conta de rendas.

No primeiro trimestre de 2014, o déficit comercial (importações maiores do que vendas externas) foi de US$ 6,66 bilhões. No mesmo período deste ano, o saldo das transações comerciais com o exterior ainda permaneceu negativo, mas em menor proporção: -US$ 6,11 bilhões.

Além da balança comercial brasileira, dentro da conta de transações correntes também estão as rendas, que incluem, por exemplo, as remessas de lucros e dividendos (parcelas de lucros) ao exterior, e os serviços, que englobam as viagens de brasileiros ao exterior, seguros e aluguel de equipamentos, entre outros.

No caso das rendas, o BC informou que foi registrado um déficit de US$ 9,47 bilhões no primeiro trimestre deste ano, contra um resultado negativo de US$ 11,22 bilhões no mesmo mês de 2014. Somente as remessas de lucros e dividendos ao exterior somaram US$ 2,66 bilhões no primeiro trimestre, contra US$ 4,91 bilhões no mesmo período do ano passado.

A conta de serviços, por sua vez, que engloba os gastos de brasileiros no exterior, registrou um déficit de US$ 10,23 bilhões nos três primeiros meses deste ano, contra o resultado negativo de US$ 10,31 bilhões no mesmo período de 2014.

Nova metodologia das contas externas

O Banco Central informou que passou a adotar, a partir da divulgação deste mês, estatísticas do setor externo em conformidade com o a sexta edição do Manual de Balanço de Pagamentos e Posição Internacional de Investimento (BPM6), do Fundo Monetário Internacional (FMI) – já adotado por várias economias ao redor do mundo.

Um dos principais impactos da implementação do chamado BPM6 acontece nos investimentos diretos no país. Segundo o BC, empréstimos intercompanhia, de filiais brasileiras no exterior para a matriz, localizada aqui no país, antes eram considerados como investimento brasileiro no exterior.

Agora, passam a ser considerados como investimento direto no Brasil, pois os valores estão ingressando na economia brasileira. Com a mudança, a previsão do Banco Central, para os investimentos diretos em todo este ano, passou de US$ 65 bilhões (previsão feita em março), saltou para US$ 80 bilhões neste mês.

No caso do déficit em transações correntes, cujo valor também ficou maior com a mudança metodológica, o Banco Central explicou que novas “rubricas” passaram a fazer parte do resultado, como os chamados “lucros reinvestidos” – ou seja, os lucros auferidos por empresas estrangeiras instaladas no Brasil.

A parte do lucro que não é remetida ao exterior, ou seja, que é reinvestida no Brasil, amplia o capital da empresa e passa a ser contabilizada como pagamento a não residente, e, com isso, passa a integrar o déficit em conta corrente, explicou o BC. Os juros da dívida doméstica pagos a não residentes também passaram a integrar o déficit em conta corrente.

Fonte: G1