Briga pela representação dos trabalhadores e pelas contribuições envolve, de um lado, a CSP-Conlutas, e de outro a Força ou a CUT

Canteiros de grandes obras de infraestrutura viraram palco de uma disputa acirrada entre sindicatos ligados a diferentes centrais sindicais. Eles brigam pela representatividade dos trabalhadores e, de quebra, pela polpuda arrecadação das contribuições sindicais (e assistencial), que podem alcançar cifras milionárias. Para isso, tentam seduzir os operários com propostas muitas vezes irreais e acabam tumultuando o ambiente de trabalho, conforme troca de acusações entre os próprios sindicalistas.

A disputa, que pode comprometer o cronograma das obras, está espalhada por todos os grandes empreendimentos do País. Começou nas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia; passou pelo Complexo Industrial de Suape, envolvendo a Refinaria Abreu Lima e o polo petroquímico, em Pernambuco; atingiu a Termoelétrica de Pecém, no Ceará; e recentemente desembarcou na Usina de Belo Monte, no Pará.

Lá o conflito tem ocorrido entre a CSP-Conlutas – uma central sindical – e o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada do Estado do Pará (Sintrapav), filiado à Força Sindical e que tem a representação atual dos operários.

Antes da última greve, encerrada na semana passada, representantes da Conlutas circulavam por Altamira distribuindo panfletos e convocando os trabalhadores para uma assembleia.

A movimentação não agradou em nada os representantes do Sintrapav, que correram para não perder terreno. Em Rondônia, eles tentaram liderar os trabalhadores das usinas de Jirau e Santo Antônio e foram desbancados pelo sindicato local (Sticcero), filiado à CUT.

“Conversei com o dirigente da Conlutas e pedi para que fossem embora. Esse tipo de ação só confunde o trabalhador e atrapalha o movimento”, afirmou o vice-presidente do Sintrapav, Roginel Gobbo. Ele avalia que, por se tratar de uma nova central sindical, a Conlutas está aproveitando os holofotes de grandes obras para se tornar conhecida no mercado nacional.

Outra crítica do sindicalista foi a parceria da central com movimentos sociais, como Xingu Vivo, que são contra a construção da barragem. “Eu sou do sindicato dos trabalhadores. Não posso ser contra a construção.”

Do outro lado, o diretor da Conlutas, Atnágoras Lopes, critica a atuação do Sintrapav nas negociações com o consórcio construtor de Belo Monte e nas orientações dos trabalhadores. “A forma de lidar com os operários está aquém da necessidade. Nos dias de greve, o sindicato mandava os trabalhadores para casa em vez de fazer uma mobilização. Deram brecha para a Justiça considerar a paralisação ilegal.”

Lopes garante que não está em Altamira para ganhar a representatividade dos trabalhadores, mas apenas para apoiá-los. Ele acusa o sindicato de prejudicar operários que eram favoráveis a uma ação comum com a central. “Mas não vamos desistir. Continuaremos em Altamira.” Na sexta-feira, após o fim da greve em Belo Monte, ele divulgou nota em que diz que “o Sintrapav não saiu em defesa de sua base diante de tantos ataques por fazer parte da base governista”.

Alvo. Nos bastidores, especialistas afirmam que por trás dessa briga está uma receita que já gira em torno de R$ 210 mil por mês e pode chegar a R$ 630 mil no ano que vem, quando a obra estiver com 21 mil trabalhadores. Para Raimundo Nonato, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção (Sintepav-CE), também filiado à Força, apenas sindicatos aventureiros têm essa visão mais financeira sobre a representação de operários, cuja base cresceu muito nos últimos anos. Mas existe. Ele conta que em São Gonçalo do Amarante, no Ceará, uma corrente política local tentou criar um novo sindicato para liderar trabalhadores da montagem da usina termoelétrica de Pecém. “Fizeram um estatuto e já tinham até base. Mas, no fim, não conseguiram levar adiante a ideia, pois 70% dos operários eram de fora da cidade.”

Uma das estratégias mais comuns para tomar a base de uma obra, afirmam especialistas, é infiltrar trabalhadores nos canteiros. Ali, eles vão tentando arregimentar outros funcionários para defender e seguir um determinado sindicato. “Eles estão vendendo ilusões aos trabalhadores”, afirma o presidente do Sintepav, de Pernambuco, Aldo Amaral. “Chegaram na obra e disseram que iam conseguir salário de R$ 1.800 para um ajudante de pedreiro. Isso não é real. Eles querem o caos.”

O sindicalista afirma que, no ano passado, a Conlutas incentivou uma greve dos trabalhadores do Complexo de Suape fora da data-base. Foi uma paralisação violenta, sem o consentimento do Sintepav. “Todos são prejudicados com esse tipo de movimento. O cronograma da obra atrasa e o trabalhador, muitas vezes, tem os dias descontados.”

Em agosto, o sindicato fez a sua mobilização para melhorar as condições de trabalho dos operários do complexo. Os dias parados foram negociados. A paralisação de março foi descontada na folha de pagamento dos funcionários. Amaral conta que já passou o nome de todas as pessoas que incentivaram a ação para a polícia. “Vão ficar de olho neles, pois são bandidos.”

Depois dos conflitos em de Jirau e Santo Antônio, o Planalto decidiu criar um acordo para evitar uma guerra sindical e aperfeiçoar as condições de trabalho na construção civil. O compromisso foi assinado em março, entre empresas, governo e centrais sindicais. Mas, segundo fontes, apesar do esforço, os problemas continuam. De um lado, os empregadores afirmam que não é possível atender a todas as reivindicações dos sindicatos. Do outro lado, centrais sindicais afirmam que há condições desumanas dentro dos canteiros de obras.

Hoje há cerca de 150 mil operários em greve no País inteiro. Boa parte deles está em projetos ligados à Copa do Mundo.

Fonte: rondodinamica.com