O Banco Central decidiu ontem manter a taxa básica de juros (Selic) em 11% ao ano, após uma sequência de nove aumentos consecutivos entre abril de 2013 e abril de 2014. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), unânime, foi tomada a poucos meses das eleições presidenciais, em um momento de baixo crescimento da economia, desaceleração do crédito e alta da inflação. Em seu comunicado, o BC disse apenas que avaliou “a evolução do cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”.

Quando iniciou o ciclo de aperto monetário, a Selic estava em 7,25% ao ano, menor patamar da história do Copom. Na época, a inflação acumulava alta de 6,6% nos 12 meses encerrados em março, o que levou o BC a agir.

Hoje, o IPCA está em 6,3%, com expectativa de que supere o teto da meta (6,5%) em julho e chegue a quase 7% às vésperas do primeiro turno das eleições. O BC tem afirmado que, se não tivesse agido, a inflação seria maior.

META

Trazer os juros para o patamar mais baixo dos últimos anos era uma das principais metas do governo Dilma. A Selic, entretanto, já está acima do 10,75% verificado no fim do governo Lula.

As taxas ao consumidor estão subindo desde o início do ano passado (a média hoje é de 28% ao ano). Mas continuam abaixo do visto no começo do governo Dilma (32%). Isso ocorre porque os bancos públicos cortaram “spreads” em 2012, parcela da taxa que inclui custos e margem de lucro, por exemplo.

A expectativa dos economistas consultados pelo próprio BC é que a taxa básica voltará a subir em dezembro e chegará a 12,5% em 2015, o que deve contribuir para nova desaceleração no crédito no próximo ano.

A alta da Selic está entre os fatores que ajudaram a reduzir a demanda por crédito, ao lado do endividamento das famílias, da queda no consumo e da cautela dos bancos.

INFLAÇÃO E PIB

Entre os argumentos do BC para encerrar o ciclo de alta dos juros está a avaliação de que parte da alta de juros ainda não se refletiu sobre os índices de preços. A instituição também tem afirmado que a alta dos alimentos neste ano é temporária, afetada por questões climáticas, e que os preços vão cair até dezembro.

Outra questão, que vem sendo citada por economistas, é a expectativa de que a economia brasileira deve encerrar 2014 com crescimento inferior aos 2,3% do ano passado, em pleno ano eleitoral. Quando Dilma foi eleita, o País crescia ao ritmo de 7%. Há também a avaliação de que não adianta tentar segurar a inflação por meio do aumento dos juros enquanto o governo mantém uma política de aumento de gastos.

PARADA

A longa reunião do Copom junto com o uso do termo “neste momento” significa que a pausa na alta da Selic, que foi mantida em 11% na reunião desta quarta-feira, 28, pode não ser tão longa, na avaliação do economista-chefe do Banco J.Safra, Carlos Kawall. Para ele, diante deste quadro, haverá algum acréscimo de prêmios no juro futuro para janeiro de 2015, diante da possibilidade de o aperto ser retomado antes do que o mercado esperava.

Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, o Banco Central perdeu mais uma chance de aumentar a credibilidade da instituição.

ENTIDADES

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou como “acertada” a decisão do Copom. Para a entidade, a decisão é um indicativo de que o período de aumento da taxa de juros chegou ao fim. “O término do ciclo de alta dos juros é necessário para evitar que o custo da redução da inflação recaia preponderantemente sobre o setor produtivo”, afirma, em nota.

Também em nota, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ressaltou que a parada no aperto monetário veio depois de uma alta acumulada de 3,75 pontos porcentuais desde abril de 2013. “A manutenção da taxa Selic neste patamar será prejudicial à retomada das atividades”, diz o presidente da federação, Paulo Skaf, na nota. “Indústria, comércio e serviços já sentem a redução do volume de vendas, e nem a proximidade do início da Copa traz reversão deste processo.”

Fonte: O Popular