Na semana do 8 de março, a Plenária das Mulheres da Força Sindical reuniu sindicalistas de quase todos estados brasileiros e setores produtivos na Praia Grande, em São Paulo, para organizar a participação das trabalhadoras para o Congresso Nacional da Central, em junho.

Em três dias de seminários, as companheiras debateram diversos temas, entre eles: a reforma da Previdência, igualdade de oportunidades e o combate a violência contra a mulher.

“Todos os temas foram amplamente debatidos e têm propostas formuladas. O documento final será entregue para a direção da Central e deverá integrar o caderno de teses do Congresso Nacional”, explicou Mônica Veloso, diretora do Sindicato e vice-presidente da CNTM, que participou ativamente das mesas de debates.

As diretoras Claudia e Etelvina também representaram o nosso Sindicato na atividade e colaboraram para a aprovação de uma moção de repúdio contra a reforma da Previdência.

Em entrevista ao Sindmetal, Monica conta os principais pontos abordados na Plenária, levanta questões importantes sobre a reforma da Previdência proposta pelo governo Temer e a violência contra a mulher.

Sindmetal: Vivemos um momento de retrocesso político, que oferece grandes ameaças a direitos já adquiridos pelos trabalhadores. Que papel cumpre a plenária neste contexto?
Monica Veloso: A Plenária das Mulheres da Força Sindical debateu muito esta conjuntura atual. Foi o destaque principal da discussão, porque é o que está na preocupação geral das pessoas e, lógico, daquelas mulheres, que são dirigentes e têm que ter respostas para dar as suas categorias. A gente sabe que o que estamos vivendo desde a recessão econômica que – tem gerado desemprego, que colabora para o emprego informal ou a volta para o emprego precário – afeta principalmente as mulheres, que cumprem dupla, tripla ou até mais jornadas de trabalho, com os afazeres domésticos, cuidados com as crianças e idosos. Muitas são chefes de família. Então a gente está falando de um suporte social que vai ficar extremamente prejudicado com a reforma da previdência. Se foca muito na questão da aposentadoria, mas a reforma tem outros desdobramentos, tão nefastos quanto.

Sindmetal: Quais são esses outros desdobramentos?
Monica: Tem a ver com a assistência social, que tem relação direta com a proteção à criança, apoio a terceira idade, a melhor idade. Também com a saúde básica, com as verbas que vão para os postos de unidade básica de saúde. Então, quando você tem o tempo de fazer um debate mais aprofundado, compreende que o impacto é muito forte.

Sindmetal: A reforma da previdência, da forma que esta, procura trazer igualdade num mundo de trabalho totalmente desigual. No entanto, nem todos os brasileiros parecem entender a gravidade deste ponto. Para você, a que isso se deve?
Monica: 
O que falta é informação. Os meios de comunicação não estão cumprindo com o papel, pelo menos não no meu ponto de vista, de ser de fato imparcial, de dar as informações de formas mais claras, mais objetivas e mais fidedignas.

Sindmetal: Como você avalia o posicionamento das mulheres em relação a esses ataques?
Monica:
 Extremamente forte e retumbante dizendo que não queremos esta reforma. Não queremos porque ela não atende em absolutamente nada as necessidades das mulheres trabalhadoras brasileiras.

Não há porque nós termos uma reforma daquilo que, inclusive, ainda nem conseguimos alcançar de fato: uma condição de igualdade. Uma mulher que se aposenta hoje, já tem perda salarial pelo fator 85/95. A gente vive num mercado de trabalho em que a mulher recebe em torno de 26% a menos que o homem, mesmo na mesma função, ou em posição profissional até superior, ela ainda ganha menos. E no momento em que ela se aposenta, na realidade de hoje, ela já tem uma perda em termos salariais.

Sindmetal: Como a Plenária pode contribuir na construção de políticas públicas para mulheres?
Monica: A Plenária discutiu vários assuntos, além de ter tirado uma posição forte contra as reformas. Nós apresentamos uma carta de moção de repúdio, que será divulgada nos meios de comunicação da Central e que pretendemos encaminhar para todos os deputados. As dirigentes também vão fazer um grande lobby na sua base para que isso também possa alcançar o maior número de pessoas possível.

Sindmetal: A Convenção 156, que trata da igualdade e equidade de gênero, também foi abordada na Plenária. Qual a importância da ratificação dela para as mulheres?
Monica: Essa ratificação ajuda e fomenta a promoção, bem como o desenvolvimento de políticas públicas para as mulheres. Elas vão desde a proteção da criança, a capacidade profissional da mulher, desenvolvimento de políticas de geração de trabalho e renda que promovam o empreendedorismo das mulheres. Também fala bastante daquilo que deve ser fortalecido na Lei Maria da Penha.

Sindmetal: Qual a contribuição da Plenária para as portas de fábricas?
Monica: 
Contribui para o fortalecimento da ação sindical. Também fizemos um debate forte da importância que os conselhos municipais têm dentro das políticas públicas voltada para as mulheres. Quando este comprometimento está mais claro no município e/ou no estado, facilita-se a criação de políticas públicas para mulheres, por exemplo. Para a gente garantir isso, precisa ter controle social e os sindicatos também são agentes de controle social para aquilo que precisa ser olhado.

Sindmetal: É ser um sindicato cidadão?
Monica: 
É isso mesmo. Para olhar para educação pública, para saúde, para creche, para uma política especifica. Isso acontece hoje em Osasco, a questão da coordenadoria de gênero, que as mulheres estão numa luta forte para que tenha suas atividades retomadas. E por quê retomada? Porque a gente sabe o quanto este tipo de instrumento tem peso na hora de dar apoio, de dar sugestões e cobrar para que as políticas sejam implementadas.

Sindmetal: Neste mesmo período, em 2013, o goleiro Bruno foi condenado a 22 anos e 3 meses pelo assassinato e ocultação de cadáver de Eliza. Isso foi comemorado no encontro das mulheres daquele ano. Hoje, Bruno foi solto, sem cumprir a metade da pena, e está empregado. Como você analisa esta situação?
Monica: 
Eu recebo esta notícia com extrema indignação e com tristeza, como mulher e cidadã. Como cidadãos temos que acreditar nas instituições, porque quando deixamos de acreditar a gente sai do estado de civilidade das coisas. Sou uma pessoa que acredita nas instituições, que sejam imparciais, laicas, justas. Infelizmente os exemplos que temos visto não são esses. Este é mais um. A gente se indigna porque sabe o quanto a violência está nas portas das pessoas. Quando se tem uma situação como esta, você está dizendo para aquele que viola, que agride, que mata, que ele pode fazer porque ele também pode sair livre. Ele [Bruno] vira um exemplo de tudo aquilo que um agressor pode fazer e sair impune.

Sindmetal: Neste caso, não é uma violência só contra a mulher, mas também ao homem pobre?
Monica: 
Com certeza. Só fortalece o quanto a gente vive ainda numa sociedade que é separatista, excludente. Apesar de ter uma lei, ela tem interpretações diferentes dependendo da sua classe social, ao seu credo, a sua opção sexual, a sua relação de gênero.

Monica: Mesmo com todos estes desafios, a saída é resistir, a gente não perde se resistir

Sindmetal: Isso pode se fortalecer ainda mais neste governo?
Monica: 
Fortalece e verbaliza. Como é possível você ouvir da representação maior do seu país de que a importância que ele dá para a mulher é aquela que ela representa dentro de casa? Que a importância que ele dá para a mulher na economia é quando ela sabe comprar o mais barato ou indicar o que é mais barato no mercado? Você não tem nenhum tipo de referência ao que de fato a mulher brasileira representa neste país para esta autoridade.

A dupla jornada é verdade. Já falamos sobre isso. Ele podia levar isso em consideração para a questão da reforma da Previdência, só que não é a mesma coisa. Mas trazer este tipo de referência numa data que a gente sabe o que representa para a luta das mulheres trabalhadoras é, no mínimo, uma ofensa. Era melhor que ele não tivesse dito nada.

Sindmetal: Monica, tem algo mais que você gostaria de falar sobre a Plenária ou alguns dos temas que a gente abordou?
Monica: 
Sobre a Plenária, nós saímos dali com uma expectativa muito forte. Sempre é bom, sinto-me muito renovada nestas atividades. Tinha representante de praticamente todos os estados brasileiros, todos os setores econômicos, você troca informação, cultura, história de vida, fortalece laços, além de fortalecer a luta. A gente se aproxima nas angústias, nas tristezas, nas dores, mas nas alegrias também.

Estar numa estratégia como esta é um espaço de poder. Espero que a Plenária tenha dado mais um passo para o empoderamento da mulher. Este é o ponto chave, quanto mais a mulher se empodera, mais ela tem condições de buscar, mais ela busca para superar, para alcançar.

No demais, é a gente saber que, mesmo com todos estes desafios, a saída é resistir, a gente não perde se resistir. O duro é você se curvar, não é hora e nem é a nossa pratica. Então precisamos resistir, é esta resistência que vai dar condições para a gente chegar ao nosso objetivo. [Fotos: Força Sindical]